quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

ARTILHEIRO PELO VASCO, VALDIRAM VIRA MORADOR DE RUA NO SUBÚRBIO DO RIO

   

O ex-jogador Valdiram virou morador de rua no bairro de Bonsucesso Foto: Rafael Oliveira

A marquise de um restaurante falido em Bonsucesso hoje só serve para abrigar moradores de rua. Ali, Valdiram forrou o chão com pedaços de papelão para se proteger da chuva. Na noite da última terça-feira, mais três homens dividiam o local com ele. Todos ali guardam suas próprias lembranças e frustrações. Mas apenas o ex-jogador de futebol, famoso por sua passagem pelo Vasco, em 2006, foi às lágrimas.

— Já fiz a alegria de uma torcida. Tive o nome cantado no Maracanã. Hoje estou aqui, na marquise. Estou pagando caro demais — desabafou.

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Sem luxo, Valdiram dorme com ex-traficantes e tenta readquirir a credibilidade

No entorno da Praça das Nações, ponto central de Bonsucesso, Valdiram é uma figura conhecida. Não apenas pelos meses de protagonismo no Vasco, mas pela nova rotina de morador de rua. O ex-atacante de 35 anos chegou ao bairro há pouco mais de dois meses e, sem trabalho, conta com a ajuda de quem se dispõe a lhe dar dinheiro.

Valdiram foi artilheiro da Copa do Brasil de 2006 pelo Vasco Foto: Jorge William / Agência O Globo

Este é o capítulo mais recente de uma história já conhecida. A trajetória de Valdiram é marcada mais pelos problemas extracampo do que pelos gols. De 2006 a 2011, passou por 18 clubes, média de três por ano. A compulsão por sexo, o alcoolismo e o vício em drogas o impediram de ter carreira sólida. Ele buscou tratamento numa instituição da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, do pastor Marcos Pereira, pela qual também foi ordenado. A experiência não o impediu de sofrer recaídas, e as portas do futebol, aos poucos, se fecharam.

O último clube foi o Atlântico, da Bahia, no ano passado. Saiu de lá após desentendimento com o treinador e viajou a São Paulo atrás de uma irmã, que não lhe abriu as portas de casa. Sem dinheiro e sem moradia na capital paulista, só encontrou o amparo das ruas.

Drama em São Paulo

No fim de 2017, com a ajuda da mesma irmã, pegou a ponte aérea e tentou a sorte no Rio. Achou que encontraria apoio no Bonsucesso, onde jogou há cinco anos. Só esqueceu que as portas de lá haviam se fechado para ele. O que se comenta no clube é que Valdiram furtou companheiros e funcionários durante sua passagem.

— Sempre tem alguém na rua que dá dinheiro ou paga comida — comenta Russo, ex-jogador e funcionário da recepção do Bonsucesso. — Ele é boa pessoa. Quando nos vemos, ele me abraça. Mas também precisa se ajudar.

Valdiram e seu amigo Airton, que ele conheceu nas ruas de Bonsucesso Foto: Rafael Oliveira

A todos que param para conversar com ele, o ex-jogador não esconde sua mágoa com Eurico Miranda. Na versão de Valdiram, o ex-presidente cruz-maltino teria lhe prometido nova chance em São Januário há cinco anos. A tal promessa nunca foi cumprida.

— Ajuda financeira nunca lhe foi negada. Agora, jogar no clube? Esquece. Não reunia condições — diz Eurico. — Lamento profundamente saber que chegou nessa condição. Mas, infelizmente, ele procurou essa situação.

Procurado, o presidente do Vasco, Alexandre Campello, lamentou a situação e prometeu que o clube irá estudar uma forma de auxiliá-lo. Enquanto isso, Valdiram conta com a solidariedade dos moradores e comerciantes de Bonsucesso. Ele chegou a morar em um apartamento usado por outras pessoas sem casa. Mas o imóvel não tem luz ou água, exibe sujeira pelos quatro cantos e é frequentado por ladrões. Logo saiu.

Retorno descartado

Quem mais lhe oferece apoio é Renato Fernandes, dono de uma ótica. Além de dinheiro, lhe dá roupas e tenta encontrar uma saída para seu drama. Quer levá-lo ao sindicato dos atletas e já agendou visita a um clube de Anchieta:

— Que clube pequeno não gostaria de contar com o Valdiram? Ele precisa de um trabalho e pode retribuir com visibilidade — conta Fernades.

Com três cirurgias nos joelhos e fora de forma, Valdiram não sonha mais com o retorno ao futebol. Está sem documentos, perdidos num encontro com uma prostituta. E não quer voltar a uma clínica de reabilitação.

— Passei três anos numa dessas e, quando saí, caí nas drogas. Você acha mesmo que resolve? — questiona o ex-atacante, que cheirava a álcool nas duas vezes em que foi encontrado pela reportagem. — Preciso é de uma casa e trabalho. Posso dar aula numa escolinha. Aí, paro. Enquanto isso, bebo minha cachaça, o que posso pagar hoje em dia.

No último sábado, Valdiram falou com o pai, Valter, por telefone. Emocionou-se, mas garantiu estar bem no Rio. Apesar da saudade dos filhos (Letícia e Valdiram Júnior), não quer voltar a Canhotinho-PE, sua terra natal. Tem certeza de que ainda dará um drible nas adversidades.

"COMO SEMPRE AS DROGAS ESTÃO POR TRÁS DESSAS TRAGÉDIAS PESSOAIS, ESPERO QUE DEUS TOQUE NO CORAÇÃO DO VALDIRAM E QUE POR MAIS QUE ELE NÃO POSSA MAIS VOLTAR AOS TEMPOS AÚREOS NO VASCO, QUE PELO MENOS RECUPERE SUA DIGNIDADE DE CIDADÃO E ENCONTRE UM LAR DE VERDADE."

Fonte: Uol esportes

POSTADO POR: LUCIANO MELO - 08/02/2018

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