quinta-feira, 20 de junho de 2019

REFLEXÃO: A DOR DO ABANDONO E O AMOR QUE NUNCA ABANDONEI

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Meu nome é Antônio, tenho 74 anos, minha esposa é a Josefa, está com 70 anos, temos um casal de filhos, Ulisses e Mara, somos pessoas do campo, que com muita dificuldade e renúncias conseguimos dar uma boa formação aos nossos filhos, renunciamos ao pouco de conforto que o dinheiro poderia nos proporcionar, abdicamos de muita coisa, por um objetivo em comum, eu e minha esposa, sonhávamos em dar uma dar uma boa formação acadêmica aos nossos filhos, mesmo a contra- gosto nossos filhos nos ajudava na lida no trabalho, das poucas vaquinhas que tínhamos na nossa pequena fazenda, tirávamos leite para fazer queijo que vendíamos na cidade, esta era nossa principal fonte de renda, enquanto nossos filhos estavam concluindo o colegial na nossa pequena cidade, guardamos dinheiro, para posteriormente investirmos na faculdade que nossos filhos iriam ingressar na capital após a conclusão do colegial, no meu filho Ulisses percebíamos facilmente sua insatisfação com a vida que levávamos, nunca passamos fome mas isso era muito pouco para quem não se conformava com o pouco que tínhamos, já nossa filha Mara era mais contida, mas sentíamos que assim como o irmão, ela só pensava em ir morar na cidade grande, para ela também o pouco que oferecíamos não bastava e eles não viam a hora de irem para a cidade grande, minha mulher Josefa, chorava pelos cantos só de pensar que ficaria longe dos filhos, que criou e dedicou tanto amor, sabem aquela máxima que diz que ‘o pouco pode ser muito para quem tem tão pouco’, eu e Josefa concordávamos com isso, por que com esse pouco, estávamos muito perto de realizar nosso sonho de dar um futuro aos nossos filhos, dias se seguiram, de suor em suor, chegamos à quantia que considerávamos suficiente para bancar a vida dos nossos filhos na cidade grande até o dia de sua formatura, enfim é chegada a hora da despedida, o dia amanheceu mais triste, eu e minha esposa Josefa não conseguíamos esconder nossa tristeza, normal para pais que vão ficar longe durante tanto tempo dos filhos, entre choros e abraços fomos acompanhar nossos filhos à rodoviária da cidade, ao acariciar minhas mãos meu filho com a concordância da irmã me falou, papai em breve esses calos nas suas mãos desaparecerão, por que daremos uma vida melhor ao senhor e à nossa mãe, mas isso não me preocupava, por que eu gostava muito da lida do campo, nossos filhos partiram e minha amada Josefa abraçada a mim chorou copiosamente vendo ao longe o ônibus que levaria nossos filhos para o aeroporto da cidade mais próxima, e assim os dias se passaram, demorou para nossos filhos entrarem em contato, ansiosamente e correndo minha velha Josefa enchia nossos filhos de perguntas, se estavam se alimentando bem, Ulisses já tinha 33 anos, Mara 32, mas para minha Josefa, nossos filhos nunca deixaram de ser aquelas crianças desprotegidas, depois de quase uma hora de conversa ao telefone, nos despedimos de nossos filhos intercalando o telefone, eu e minha esposa conseguimos falar com os dois e ficarmos a par de tudo o que eles estavam vivendo, e pelas suas palavras , percebíamos o quanto estavam entusiasmados com as pessoas que conheceram e com o que a cidade grande poderia oferecer, isto nos preocupou um pouco.
Ao longo dos anos, as ligações dos nossos filhos para nós foram diminuindo significativamente, entendíamos por achar que era por conta dos estudos, mesmo tristes, ficávamos quietinhos para não atrapalhar, até chegou o dia que nossos filhos nos ligaram para avisar da formatura, já estávamos com nossas roupas novas para o tão esperado e sonhado dia, mas assim como uma pancada na alma, nossos filhos falaram que não poderíamos ir, por que a faculdade os surpreenderam e fizeram uma festa de formatura antecipada e ambos atarefados com a organização, não tiveram tempo de nos avisar, minha mulher não se conformou, tentei acalmá-la, no fundo ela sabia que tinha inverdades nessa história que ambos inventaram, minha mulher magoada e com raiva acabou desligando o  telefone e chorando copiosamente, meu Deus será que nossos filhos estariam com vergonha de nos apresentar aos seus amigos ricos?
Certo dia num supermercado, nos deparamos com a mãe de uma amiga de faculdade dos nossos filhos, ao qual entusiasmadamente nos felicitou pelos nossos filhos e perguntou se queríamos ir com eles para a festa de formatura, que seria na próxima semana, minha mulher quase desmaiou, com uma profunda tristeza no peito falei à nossa conhecida que era apenas emoção pela data que se aproximava, recusei o convite e disse que já tínhamos comprado as passagens, após recuperar-se do baque, minha mulher disse que iriamos sim aceitar a convite.
Chegando na cidade nos separamos do casal de amigos, e marcamos de nos encontrarmos na festa, chegamos escondidinho sem se deixar notar por ninguém, ficamos no cantinho, e mesmo diante de tanta dor por saber da vergonha que nossos filhos tinham de nós seus pais, nesta hora só o que importava era a satisfação de ver nossos filhos subir no palco para receber o canudo de formatura, e logo escutamos o chamado no microfone do nome dos nossos filhos, ambos subiram de mãos dadas, foi muita emoção para nós, pois passou pela nossa cabeça tudo que passamos para ver nossos filhos chegar até a esse ponto, fomos trazidos à realidade da forma mais cruel ao ouvir meu filho falar da nossa ausência por motivo de doença da mãe e que eu pai, fiquei para cuidar da mãe deles, os olhos do casal de amigos que nos deu carona nos procurava pelo salão da festa, não acreditando no que eles acabaram de ouvir, sob os olhos dessas pessoas saímos, eu segurando minha velha que chorava sem parar, na volta para casa, aproveitando o sono da minha Josefa na viagem, descarreguei todo o choro, triste pela desfeita que nossos filhos fizeram comigo e com minha velha, olhando para os calos das minhas mãos, pedi somente uma coisa à Deus que ele compreendesse e não castigasse nossos filhos pelo que fizeram, fiquemos sabendo depois que nossos filhos tomaram conhecimento do ocorrido e que seus pais sabiam de tudo que eles fizeram, ambos nunca tiveram coragem de vir se desculpar, como que para se redimir da culpa, todos os meses, eles depositavam uma boa quantia em dinheiro para nós, nunca tocamos nesse dinheiro que foi se acumulando na poupança, sozinhos e abandonados e em consenso, decidimos abandonar tudo e irmos morar num asilo, através de amigos ficávamos sabendo de tudo da vida dos nossos filhos, meu filho Ulisses, que tornara-se um engenheiro, com a queda da economia não conseguiu mais fechar contratos, estava casado, tinha uma filha que sonhava em conhecer os avós, nossa filha Mara, formou-se em medicina, tornara-se uma excelente medica, mas sucumbida por um C.A, não pode mais trabalhar e gastou quase todas as economias com tratamento, com aparência abatida pela doença foi abandonada pelo marido, tentamos ajuda-la mas ambos haviam nos riscado das suas vidas, não sabíamos onde encontra-la, 10 anos se passaram, hoje eu com 84 anos e minha velha com 80, fomos surpreendidos com a notícia que nossos filhos estavam na cidade tentando nos encontrar, sai pelo asilo à procura de Josefa para dar a notícia, ao avistá-la percebi pessoas falando com ela, foi quando reconheci meu filho acompanhado com uma mulher, sua esposa e uma moça que parecia ser minha neta, tinha também outra mulher com um lenço na cabeça, era minha filha que perdera os cabelos por causa do C.A, todos olharam em minha direção, todos choravam, minha velha me puxou e num abraço coletivo todos choramos sob o olhar dos idosos e funcionários do asilo que sabiam de tudo que passamos com nossos filhos, mas por saberem do amor e vontade que tínhamos de encontra-los ninguém ousou falar nada, pois estavam tocados de emoção pela nossa felicidade.
Todo o dinheiro que meu filho e minha filha nos mandava pelo banco, usamos para investir na fazenda, meu filho usou do seu conhecimento acadêmico para transformar nossa velha fazenda num hotel fazenda que acabou dando muito certo, o dinheiro ainda deu para custear todo o tratamento da nossa filha que acabou se curando e reencontrando um grande amor de infância e se casou de novo, hoje todo o sofrimento que passamos é pequeno diante da satisfação de ter nossos filhos e nossa neta conosco, na nossa terrinha, o amor que sentimos por nossos filhos, nunca abandonamos.

TEXTO: LUCIANO MELO

POSTADO POR: LUCIANO MELO - 23/06/2019

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